E pensar que este é o meu último dia de vida. Não sei se isso é bom ou se é ruim. Poderia ser bom pois eu não terei de comer aquelas rações horríveis, nem dormir neste chão duro, tão pouco terei de ouvir mais uma vez aquele discurso chato de que estamos todos aqui a fim de “servir a humanidade”. Outrora poderia ser ruim pelo fato de que nunca mais verei a luz ainda que escassa do Sol, e também não verei outra vez o número 5694, o macho humano da cela 598.
Eu não fiz nada do que gostaria de ter feito. Não conheci o mundo lá fora, e não me refiro a todo o mundo e sim a apenas o que há além destes enormes muros brancos que nos cercam. Eu não sei o que significa horizonte, tão pouco liberdade.
Estou aqui desde que me lembro. Assim como as outras crianças, eu fui “criada artificialmente em laboratório”. Isto é, não tive pai ou mãe, quem me deu a luz foi uma dessas mulheres que aceitam uma boa quantia em dinheiro por cada um dos nove meses para carregar no ventre um feto que não lhe pertence. Nasci com sete meses e meio, e estéril. Não conheço o colo materno.
Quase se livraram de mim, mas minha carne ainda tinha valor, dispensar isso tão fácil assim seria um convite ao prejuízo. Porém sei que a minha esterilidade obrigou outras fêmeas humanas a terem o dobro de crianças. Pois Eles pensam grande e longe, as barrigas de aluguel não seriam o suficiente para suprir a necessidade de lucro que corre em seu sangue, por isso resolveram usar também o “nosso” ventre como fábrica de dinheiro(não o meu pois sou estéril, me refiro a nós fêmeas humanas).
Eu sinto muito por aquelas que têm a árdua tarefa de carregar no ventre as crianças que eu não posso carregar, digo árdua porque é assim que é. Ouvi dizer que lá fora a maternidade é uma coisa maravilhosa, diferente do que vem a ser aqui dentro, e por isso eu ainda acho que minha esterilidade me trouxe uma dor a menos, feliz ou infelizmente.
Eu não sei bem como é feita a fecundação aqui, pois nunca foi preciso que fizesse, sei apenas que tudo aqui é feito artificialmente em laboratório. E sei que elas, as fêmeas humanas, levam em seu ventre um óvulo fecundado sabe-se lá por que número. São nove meses, nove longos meses, e assim que a criança nasce já recebe o seu número, e a fêmea humana o amamenta apenas uma vez, então Eles o levam embora. Retiram o leite dela para amamentar o pequeno ser do outro lado desta “fábrica de infelizes”, todos os dias por longos e longos meses. Dizem que amamentar um recém nascido faz com que a fêmea humana crie laços para com ele. E os laços aqui são proibidos.
É por isso que somos todos números, e eu gostaria tanto de saber qual nome teria se tivesse um, mas Eles me chama apenas pelo meu número. E tem tantas coisas que eu gostaria de saber ao meu respeito:
Gostaria de saber qual é a cor dos meus olhos. Seria azul como o pequeno céu que parece tão grande do lado de fora; castanhos assim como os olhos da maioria dEles, que me fitam anotando coisas em suas pranchetas trazendo o resto do rosto escondido por uma máscara branca; verdades como as folhas da única árvore que eu conheço; acinzentados como a chuva que cai lá fora. Ninguém nunca me disse qual é a cor dos meus olhos, e eu nunca os vi.
Também nunca vi o meu rosto, e gostaria de saber como ele vem a ser. Certo, eu já vi algumas poucas vezes a sua imagem refletida, se é que aquilo poderia ser chamado de imagem. Uma dessas poucas vezes foi quando me colocaram dentro de um “tubo de ensaio”. Na verdade era uma espécie de aquário bem maior que o comum, mas me colocaram lá com o intuito de fazer testes para cosméticos e sabe-se lá mais o que, portanto continuo achando que aquilo era realmente um tubo de ensaio.
O que eu vi foi apenas um contorno manchado do costumam chamar de rosto, mas não estava nenhum pouco parecido com um. Desmaiei poucos segundos depois de usarem o meu organismo como cobaia para o luxo egoísta da raça superior que vive lá fora. Dizem que eles são bem mais altivos e inteligentes do que nós, que são mais evoluídos.
Depois que Eles usaram não só o meu corpo, mas também os de diversos outros números para teste, uma mulher disse que nós seriamos inúteis para o consumo, desprezaram-na. E eu bem que concordava com ela, meu corpo estava repleto de manchas vermelhas que ardiam tanto quanto o contato com o fogo, meus pelos caíram, tive dores de cabeça freqüentes, e nada do que comia ficava muito tempo em meu estomago. Não acho que minha carne fosse apropriada para o consumo.
Aquela mulher ficou nos observando por detrás de sua mascara branca, que me permitiu ver nos olhos dela uma coisa que nunca havia visto nos olhos de outra pessoa. Ela ficou observando-nos com aquela mesma feição durante horas, enquanto outros tentavam preparar um antídoto ou fosse o que fosse para aliviar nossas dores e tentar fazer-nos ser como éramos. Depois daquele dia nunca mais vi aquela mulher outra vez.
Conseguiram fazer um remédio para tentar restaurar ou aliviar nossas dores. Foi a única vez que fui tida como cobaia, depois disto criaram um departamento apenas para isto, ou seja, assim como aqui nós somos criados para satisfazer a fome, outros seriam criados para satisfazerem os luxos e as vaidades, ambos criados para servirem a raça superior que vive do lado de fora.
Outra coisa que gostaria de saber sobre mim é como viria a ser o meu cabelo, se eu tivesse. Eu até o tenho, porém o raspam frequentemente, dizem também que cabelo dá muito trabalho e requer tempo e cuidado. É e sempre foi assim. Nunca importa o que nós sentimos, queremos ou pensamos. Eu nunca vou me conhecer de verdade, pois me conhecendo eu saberia mais sobre mim do que Eles, e assim ficariam em desvantagem, pois sentimentos nunca importam(como Eles mesmo costumam dizer) e por isso Eles sabem tudo sobre mim.
Tudo o que para mim é lindo e necessário, para Eles é simples e inútil. Eu nunca irei olhar o meu rosto numa superfície espelhada que me dê uma imagem fiel do que eu sou, nunca olharei nos meus olhos e ajeitarei os meus cabelos atrás da orelha. Nunca vou sentir a luz do Sol toda e intensamente, nem sentirei o gosto da água da chuva e nunca saber se realmente há milhares de estrelas no céu(eu consigo contar apenas treze). Não conheço o perfume das flores nem o gosto das frutas, e nem vou. Não sei qual a diferença entre a tristeza e a felicidade(para mim elas sempre andam juntas e de mãos dadas e a primeira está sempre em evidência).
Parece que tudo isto não passa de um pesadelo, do qual eu irei acordar a qualquer momento em uma cama quente e confortável, com meu marido e meu filho sorrindo e me esperando para tomar o café-da-manhã, farto em frutas e cereais. Mas acho que o meu pesadelo acabou se tornando a vida real.
E a vida real diz-se por um pequeno cômodo tido por cela. Diz-se por um corredor farto de outras tantas celas, que são para nós salas de espera do dito “destino”. De um lado números pares e do outro, ímpares. Esta é a minha vida, é a nossa vida.
As horas passam e a angustia circula em minhas veias, degenera minhas entranhas e degusta arduamente a minha carne. O tempo corre em contagem regressiva de mãos dadas com a vida, indo de encontro com a morte. Todos os cuidados que foram tomados para que os laços não existissem foram em vão. Os laços envolvem a minha alma que exala um perfume doce e já mórbido, murmurando palavras de “adeus”. Aceia por olhares incontidos, e pelo silêncio respeitado.
Os laços me cercam dia e noite, e me levam em sonhos para perto de um sentimento desconhecido, que tem sido a minha droga, e o meu motivo para abrir os olhos sob a escassa luz solar. Eu não sei nada sobre ele, sei apenas que o seu número é 5694. Espero vê-lo amanhã, antes do abate. Antes que eu me torne um vil produto comercial, se é que já não sou.
A quem a minha carne há de alimentar?
O alimento é algo essencial para a vida, e acho tão estranho nós termos de morrer por isso, sem nem ter escolha. Assim como todos os que habitam a Terra nascemos sabendo que vamos morrer um dia, pois a vida é coisa frágil. Mas diferente de todos, nós nascemos destinados à morte, entregue desde os primeiros dias de vida em seus braços frios. O que podemos fazer, somos uma reles raça inferior.
Amanhã vamos todos para o abate, eu, o número 5694 e outros tanto números. Será o fim de nossa missão em vida. Depois os nossos cadáveres serão bem servidos à mesa de diversas famílias no mundo todo.
E quem há de encontrar este meu desabafo?
De fato eu não faço a mínima idéia! A única coisa que eu sei é que eu gostaria de tê-lo conhecido. Eu lhe perguntaria o seu nome, e você me diria o seu nome. E eu sorriria e falaria com o pesar sobre os meus ombros:
“Muito prazer em conhecê-lo! Eu lhe diria também o meu nome se eu tivesse um, mas não o tenho. Porém pode me chamar assim como todos os outros, pelo meu número de morte. Pode me chamar de 5683.”
Não sei que dia é hoje, nunca soube.
Ass.: nº5683; cela 549; abate 8.960-013.
Eu não fiz nada do que gostaria de ter feito. Não conheci o mundo lá fora, e não me refiro a todo o mundo e sim a apenas o que há além destes enormes muros brancos que nos cercam. Eu não sei o que significa horizonte, tão pouco liberdade.
Estou aqui desde que me lembro. Assim como as outras crianças, eu fui “criada artificialmente em laboratório”. Isto é, não tive pai ou mãe, quem me deu a luz foi uma dessas mulheres que aceitam uma boa quantia em dinheiro por cada um dos nove meses para carregar no ventre um feto que não lhe pertence. Nasci com sete meses e meio, e estéril. Não conheço o colo materno.
Quase se livraram de mim, mas minha carne ainda tinha valor, dispensar isso tão fácil assim seria um convite ao prejuízo. Porém sei que a minha esterilidade obrigou outras fêmeas humanas a terem o dobro de crianças. Pois Eles pensam grande e longe, as barrigas de aluguel não seriam o suficiente para suprir a necessidade de lucro que corre em seu sangue, por isso resolveram usar também o “nosso” ventre como fábrica de dinheiro(não o meu pois sou estéril, me refiro a nós fêmeas humanas).
Eu sinto muito por aquelas que têm a árdua tarefa de carregar no ventre as crianças que eu não posso carregar, digo árdua porque é assim que é. Ouvi dizer que lá fora a maternidade é uma coisa maravilhosa, diferente do que vem a ser aqui dentro, e por isso eu ainda acho que minha esterilidade me trouxe uma dor a menos, feliz ou infelizmente.
Eu não sei bem como é feita a fecundação aqui, pois nunca foi preciso que fizesse, sei apenas que tudo aqui é feito artificialmente em laboratório. E sei que elas, as fêmeas humanas, levam em seu ventre um óvulo fecundado sabe-se lá por que número. São nove meses, nove longos meses, e assim que a criança nasce já recebe o seu número, e a fêmea humana o amamenta apenas uma vez, então Eles o levam embora. Retiram o leite dela para amamentar o pequeno ser do outro lado desta “fábrica de infelizes”, todos os dias por longos e longos meses. Dizem que amamentar um recém nascido faz com que a fêmea humana crie laços para com ele. E os laços aqui são proibidos.
É por isso que somos todos números, e eu gostaria tanto de saber qual nome teria se tivesse um, mas Eles me chama apenas pelo meu número. E tem tantas coisas que eu gostaria de saber ao meu respeito:
Gostaria de saber qual é a cor dos meus olhos. Seria azul como o pequeno céu que parece tão grande do lado de fora; castanhos assim como os olhos da maioria dEles, que me fitam anotando coisas em suas pranchetas trazendo o resto do rosto escondido por uma máscara branca; verdades como as folhas da única árvore que eu conheço; acinzentados como a chuva que cai lá fora. Ninguém nunca me disse qual é a cor dos meus olhos, e eu nunca os vi.
Também nunca vi o meu rosto, e gostaria de saber como ele vem a ser. Certo, eu já vi algumas poucas vezes a sua imagem refletida, se é que aquilo poderia ser chamado de imagem. Uma dessas poucas vezes foi quando me colocaram dentro de um “tubo de ensaio”. Na verdade era uma espécie de aquário bem maior que o comum, mas me colocaram lá com o intuito de fazer testes para cosméticos e sabe-se lá mais o que, portanto continuo achando que aquilo era realmente um tubo de ensaio.
O que eu vi foi apenas um contorno manchado do costumam chamar de rosto, mas não estava nenhum pouco parecido com um. Desmaiei poucos segundos depois de usarem o meu organismo como cobaia para o luxo egoísta da raça superior que vive lá fora. Dizem que eles são bem mais altivos e inteligentes do que nós, que são mais evoluídos.
Depois que Eles usaram não só o meu corpo, mas também os de diversos outros números para teste, uma mulher disse que nós seriamos inúteis para o consumo, desprezaram-na. E eu bem que concordava com ela, meu corpo estava repleto de manchas vermelhas que ardiam tanto quanto o contato com o fogo, meus pelos caíram, tive dores de cabeça freqüentes, e nada do que comia ficava muito tempo em meu estomago. Não acho que minha carne fosse apropriada para o consumo.
Aquela mulher ficou nos observando por detrás de sua mascara branca, que me permitiu ver nos olhos dela uma coisa que nunca havia visto nos olhos de outra pessoa. Ela ficou observando-nos com aquela mesma feição durante horas, enquanto outros tentavam preparar um antídoto ou fosse o que fosse para aliviar nossas dores e tentar fazer-nos ser como éramos. Depois daquele dia nunca mais vi aquela mulher outra vez.
Conseguiram fazer um remédio para tentar restaurar ou aliviar nossas dores. Foi a única vez que fui tida como cobaia, depois disto criaram um departamento apenas para isto, ou seja, assim como aqui nós somos criados para satisfazer a fome, outros seriam criados para satisfazerem os luxos e as vaidades, ambos criados para servirem a raça superior que vive do lado de fora.
Outra coisa que gostaria de saber sobre mim é como viria a ser o meu cabelo, se eu tivesse. Eu até o tenho, porém o raspam frequentemente, dizem também que cabelo dá muito trabalho e requer tempo e cuidado. É e sempre foi assim. Nunca importa o que nós sentimos, queremos ou pensamos. Eu nunca vou me conhecer de verdade, pois me conhecendo eu saberia mais sobre mim do que Eles, e assim ficariam em desvantagem, pois sentimentos nunca importam(como Eles mesmo costumam dizer) e por isso Eles sabem tudo sobre mim.
Tudo o que para mim é lindo e necessário, para Eles é simples e inútil. Eu nunca irei olhar o meu rosto numa superfície espelhada que me dê uma imagem fiel do que eu sou, nunca olharei nos meus olhos e ajeitarei os meus cabelos atrás da orelha. Nunca vou sentir a luz do Sol toda e intensamente, nem sentirei o gosto da água da chuva e nunca saber se realmente há milhares de estrelas no céu(eu consigo contar apenas treze). Não conheço o perfume das flores nem o gosto das frutas, e nem vou. Não sei qual a diferença entre a tristeza e a felicidade(para mim elas sempre andam juntas e de mãos dadas e a primeira está sempre em evidência).
Parece que tudo isto não passa de um pesadelo, do qual eu irei acordar a qualquer momento em uma cama quente e confortável, com meu marido e meu filho sorrindo e me esperando para tomar o café-da-manhã, farto em frutas e cereais. Mas acho que o meu pesadelo acabou se tornando a vida real.
E a vida real diz-se por um pequeno cômodo tido por cela. Diz-se por um corredor farto de outras tantas celas, que são para nós salas de espera do dito “destino”. De um lado números pares e do outro, ímpares. Esta é a minha vida, é a nossa vida.
As horas passam e a angustia circula em minhas veias, degenera minhas entranhas e degusta arduamente a minha carne. O tempo corre em contagem regressiva de mãos dadas com a vida, indo de encontro com a morte. Todos os cuidados que foram tomados para que os laços não existissem foram em vão. Os laços envolvem a minha alma que exala um perfume doce e já mórbido, murmurando palavras de “adeus”. Aceia por olhares incontidos, e pelo silêncio respeitado.
Os laços me cercam dia e noite, e me levam em sonhos para perto de um sentimento desconhecido, que tem sido a minha droga, e o meu motivo para abrir os olhos sob a escassa luz solar. Eu não sei nada sobre ele, sei apenas que o seu número é 5694. Espero vê-lo amanhã, antes do abate. Antes que eu me torne um vil produto comercial, se é que já não sou.
A quem a minha carne há de alimentar?
O alimento é algo essencial para a vida, e acho tão estranho nós termos de morrer por isso, sem nem ter escolha. Assim como todos os que habitam a Terra nascemos sabendo que vamos morrer um dia, pois a vida é coisa frágil. Mas diferente de todos, nós nascemos destinados à morte, entregue desde os primeiros dias de vida em seus braços frios. O que podemos fazer, somos uma reles raça inferior.
Amanhã vamos todos para o abate, eu, o número 5694 e outros tanto números. Será o fim de nossa missão em vida. Depois os nossos cadáveres serão bem servidos à mesa de diversas famílias no mundo todo.
E quem há de encontrar este meu desabafo?
De fato eu não faço a mínima idéia! A única coisa que eu sei é que eu gostaria de tê-lo conhecido. Eu lhe perguntaria o seu nome, e você me diria o seu nome. E eu sorriria e falaria com o pesar sobre os meus ombros:
“Muito prazer em conhecê-lo! Eu lhe diria também o meu nome se eu tivesse um, mas não o tenho. Porém pode me chamar assim como todos os outros, pelo meu número de morte. Pode me chamar de 5683.”
Não sei que dia é hoje, nunca soube.
Ass.: nº5683; cela 549; abate 8.960-013.
"Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo sucede aos animais; a mesma cousa lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego; e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, por que todos são vaidade.
Todos vão para um lugar: todos são pó, e todos ao pó tornarão."
Eclesiastes 3:19-20.
Raíssa Notoroberto Herminelli