Era uma noite como essas outras, em que o céu se parece com um papel camursa azul bem escuro, com pequenas lantejoulas esparramadas. E a Lua, uma circunferência exata e prateada. Algumas nuvens passavam de um lado para o outro naquele céu salpicado de pontinhos brilhantes. O céu estava lindo!
Em meu quarto se encontrava um vazio. Apenas eu e uma Luz cinérea, que dançava uma valsa romântica com o Silêncio, e como dançavam bem. Uma corrente de ar entrou pela janela, fazendo o Silêncio esmaecer-se, a Luz estremeceu. Eles se entreolhavam, um nos olhos do outro, era possivel ver o que eles pensavam. Bem ali diante de mim, uma cena que jamais pensei que fosse ver: O Silêncio deu um beijo nos lábios gélidos da Luz cinérea, e então tornaram-se um só. Não havia diferença entra a luz ou o silêncio.
Eu pensava em tantas coisas, e ao mesmo tempo não pensava em coisa alguma. Meus olhos percorriam o quarto, de um lado para o outro procurando alguém para conversar. Nada. O tédio pairava sobre minha cabeça, e eu me perdia na escuridão daquele comodo frio.
Não sei em que momento entrou e nem quanto tempo eu demorei para percebê-la, mas quando dei por mim ela já estava lá; uma sombra num dos cantos do quarto. Estava proxima à mim, tão prómixa que eu sentia a sua respiração na minha nuca, e ainda sim longe o bastante para que eu não ousase tocá-la. Ela já estava ali há tanto tempo que nem dava mais tempo para eu me assustar, fiz a unica coisa que poderia ter feito naquele momento.
"Quem é você?", perguntei me encolhendo na cama.
"Quem você gostaria que eu fosse?", respondeu com uma voz amarga e macia.
"Eu não sei. E por acaso você é quem eu gostaria que fosse?", olhava atenta tentando reconhecer qualquer traço de sua silhueta misteriosa.
"Acho que não! Mas prefiro não dizer quem eu sou logo no começo da conversa, isto poderia prejudicar o resto da noite."
"Tudo bem... Eu acho!"
"Você está sempre aqui?"
"Creio que sim. Este é meu quarto!"
"Oh, entendo! Mas por que está aqui, sozinha, e no escuro?"
"Acho que penso melhor sobre minha vida assim..."
"Vida!", disse com uma voz de quem vai chorar segundos após, "E você precisa pensar sobre a sua... Vida?", não fez.
"Oh, sim! Eu... fiz algo terrível! Eu joguei minha vida por água abaixo."
"Ora, o que você fez de tão horrível assim?"
"Eu me vinguei... inutilmente. Eu..."
"Você traiu a pessoa de quem gosta por um sentimento idiota de vingança, que a fez cometer tal ato embora
não fosse isso que quisesse de coração."
"Eeh... Como sabe?"
"Eu apenas sei, dá para ver em você, em seus olhos."
"Em meus olhos?!"
"Eles não brilham, são foscos. Não brilham nem com o reflexo da luz da Lua."
"...foi o que ele disse.", sussurei, "Ele não via mais o brilho em meus olhos, pois eles não estão aqui... em mim."
"Sua culpa o ofuscou, sua tristeza os inunda, e eles já não vêem a... Vida como antes."
"Não mesmo! Eu sinto falta dele... O que foi que eu fiz com a minha vida meu Deus?", cai aos prantos.
"Eu não sou Deus...", disse dando um passo à frente, "Mas posso lhe responder esse pergunta."
"Hmmm...", olhei para onde deveria ser o rosto da sombra.
"Não olhe!", eu já tinha olhado e não vi nada, "Apenas escute!" A sombra veio na minha direção, sentou-se do meu lado e colocou a mão sobre o meu ombro.
"Você errou, sim! Mas você tem esta tendência ao erro, vocês humanos não sabem como viver, só aprendem a andar com suas quedas.", continuou a sombra.
"Mas o que eu devo fazer agora? Ele não quer me perdoar!"
"Você se arrepende do fez, não?"
"Muito, muitissimo!"
"Pois bem, você já deu o primeiro passo para o perdão. E a agora você tem que aparentar mudança. Você tem que ser o que aprendeu ser com o seu erro, e não errar denovo."
"Mas ele disse que..."
"Não importa o que ele disse, apenas faça o que é certo! Se ele gosta de você, ele vai saber reconhecer seu arrependimento."
"Por que quer tanto me ajudar? Ainda não me disse: Quem é você?"
"Acho que já lhe ajudei bastante por hoje!", e ela se levantou do meu lado.
"Espere, me diga: Quem é você?"
"Quer mesmo saber, garotinha!"
"Eu quero!"
"Eu sou o fim da sua vida..."
"Desculpe-me, mas eu não..."
"Morte! Meu nome é Morte... Dona Morte.", eu faleceria de medo ali mesmo mas mais uma vez era tarde
demais para qualquer tipo de surpresa ou susto.
"Eu... morri? Vou morrer...?"
"Não, você não morreu garotinha. E sim, você vai morrer, quando chegar a hora."
"Eu estou sonhando?", perguntei a mim mesma.
"Se você não sabe, como eu saberia? Eu estou aqui diante de você, eu lhe escuto e lhe falo, bem como você me escuta e me fala. Seria eu mesmo criação da sua imaginação solitária?", ela respondeu por mim.
"Mas eu pensei que a senhora fosse muito ocupada, não deveria estar cuidando das almas que abandonam os corpos por todo esse mundo? Por que perde seu tempo comigo, e justo comigo?"
"Não, minha obrigação é a sua alma, querida, eu sou a sua Morte. E creio que eu não tenha perdido meu tempo com você, não quero carregar uma alma triste quando chegar a sua hora, as almas tristes são mais pesadas e escorregadias como lágrimas. Alguém precisava vir aqui, e o fiz eu mesma."
"Oh! Quer dizer que cada pessoa tem uma morte para sí?"
"Pois é claro! Ninguém morre de uma mesma maneira em um mesmo lugar, tão pouco num mesmo tempo. Cada pessoa tem uma morte para sí. E a Morte é onipresente. Eu estou aqui com você, sentiando o cheiro adocicado de sua alma, e sou a sua morte. Mas ao mesmo tempo estou em um outro lugar do mundo recolhendo a alma de um senhor que sofrera um infarto. E estou também pegando cuidadosamente em meu colo a alma de um garotinho que morreu por insuficiancia respiratória. E seguro firme a alma dolorosa de um jovem que se suicidou por desgosto pela vida. Estou aqui e em todo lugar. Sua alma não precisa de mim, mas você sim. Ou queria entrar em depressão outra vez?"
"Mas não entendo, por que você veio até aqui?"
"Ora, você me chamou!"
"Eu... a chamei?!"
"Sim, quando disse que seria bem melhor para todos se a Morte lhe levasse de uma vez. Você chamou por mim, e você quis me ver aqui. Você poderia ter-me confundido com as escuridão, mas preferiu saber quem sou eu."
"Dona Morte, você sabe quem sou eu?"
"Eu não vejo você! Eu vejo sua alma doente e seus olhos foscos, esta é você para mim."
"A senhora é uma mancha escura no meu quarto, não vejo seu rosto!"
"Nem deve!"
"Por que não deveria?"
"Na verdade você não pode, mas uma dia poderá, e tão nitida e claramente."
"Quer dizer, no dia de minha morte?"
"Exato!"
"Mas diga-me, se é que posso saber, como é o seu rosto?"
"Não posso explicar-lhe como é o meu rosto, não sei fazê-lo. Mas sabe, ele bem que se parece com a imagem
que vê em seu espelho."
Quando eu me dei conta, ela já tinha ido. E da mesma forma como chegou, parecia que já tinha ido há tanto tempo, mas eu ainda ouvia a sua voz surrando aos meus ouvidos e sentia sua respiração pesada sobre o meu pescoço.
O Escuro. E o Silêncio ainda beijava os lábios gélidos da Luz cinérea, e ao mesmo tempo dançavam nobremente diante dos meu olhos.
As estrelas cintilavam no céu e a Lua brilhava alta e alva.
Eu estava sozinha denovo em meu quarto, mas desta vez com a certeza de que me reerguria das cinzas, meus olhos brilhariam tanto quanto as constelações e a minha alma teria o fulgor do Sol.
A Morte me visitou naquela noite, e me trouxe devolta à Vida.
Raíssa Notoroberto Herminelli
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
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